Alguém quer chicletes?


De segunda à sexta, faltando alguns minutos para as dezenove horas. A passagem em frente a casa de carnes era inevitável. Só havia um caminho até a igreja. Violão nas costas, jeans batido, camiseta, tênis e fones no ouvido, às vezes acompanhada de um velho amigo, nada notável. Comprar chicletes se tornara rotina desde a descoberta do cara da casa de carnes. Moreno claro, uns 25 anos, olhos alegres, sempre com um sorriso enorme no rosto, gentilmente me vendendo chicletes. Os mesmos, o mesmo sabor, a mesma quantidade, todos os dias. E mesmo assim, me perguntava o que queria, com uma simpatia terrivelmente encantadora. 

Era agonizante a vontade de conversar, perguntar alguma coisa, qualquer coisa! Saber seu nome, onde morava, o que gostava de fazer, ou até mesmo se gostava de cachorros, seu estilo musical favorito... Enfim, conhecer aquela figura que tão gentilmente me vendia chicletes, porém nada acontecia. Até que um dia resolveu me perguntar se eu cantava. Olhei-o com grande expectativa, sem saber muito bem como estender a conversa. Sorri e disse sim enquanto pagava os chicletes. Fora pega de surpresa. Me fitou com os olhos, como de costume, sorriu como se uma grande dúvida tivesse sido finalmente esclarecida, e agradeceu. Ainda em estado de choque devido à pergunta tão sutil, mas que ao mesmo tempo revelava que a curiosidade era recíproca, saí, sem dar continuidade a conversa. Mas que grande besteira. Como alguém que fala tanto quanto eu pôde simplesmente dizer “sim”? Enquanto andava às pressas para não me atrasar para o ensaio, pensava nas mil coisas que poderia ter dito. Depois disso, a rotina não mudou. Mas aquela vontade de conhecê-lo era cada dia mais insaciável. A expectativa de uma nova pergunta aumentava.

Numa noite de sexta feira, quando entrei no local para comprar meus chicletes, ele conversava com outro rapaz. Pareciam se conhecer a muito tempo. Não pude deixar de observar a conversa e descobri que seu aniversário seria no outro dia. Pronto. Eu tinha uma informação de muitíssima importância nas mãos. Só me restava encontrar a forma perfeita de usá-la. Pensei naquilo o resto da noite, e também no outro dia. Pensei nas diversas formas que eu poderia ir até lá e dar parabéns, demonstrar interesse, puxar assunto, quebrar o enorme iceberg que nos separava. Não conseguia chegar a conclusão alguma. 

A noite de sábado chegou rápido. Eu já nem tinha mais esperanças de destravar aquele freio que me impedia de tomar uma atitude. Eu não me importaria com a reação dele diante dos meus cumprimentos. Na verdade eu nem sabia se ele estaria lá. Mas não tive forças pra fazer alguma coisa. Saí com meus amigos. Minha grande falta de coragem me incomodava tanto que até os que estavam comigo perceberam. Contei a história. Sabia que meus amigos iriam me encorajar a ir até lá. Depois de muita insistência da parte deles, levantei da cadeira e me coloquei no caminho até a casa de carnes. Coração na boca, suando frio. A cada passo que dava o desespero e a vontade de voltar correndo aumentavam, mas não desisti. Entrei devagar. Dessa vez não de tênis e camiseta, mas de salto alto e maquiagem. Ele me olhava de trás do balcão. Não com um olhar qualquer. Seu olhar transmitia surpresa e dúvida. Encostei-me ao balcão. A hora chegara. O que dizer? Depois de tanto ensaiar, depois de tanto criar situações, minha mente estava completamente vazia. Nossos olhares permaneceram fixos um no outro durante alguns segundos. Minha mente estava entre ele e eu, no vácuo profundo da falta de palavras, e meu olhar nada dizia. Até que pedi chicletes. Ele continuou me olhando sem entender nada, pegou, dessa vez sem perguntar. Paguei, agradeceu, saí. Como de costume.

O que tinha acontecido ali? Eu não sabia. Ninguém sabia. Voltei para a lanchonete onde meus amigos me esperavam ansiosamente. Perguntaram-me como tinha sido. Alguém quer chicletes? –eu perguntei com ar de frieza. Ninguém entendeu nada. E minha rotina continuou igual. Esse romance não era pra acontecer mesmo. Mas tudo bem. Ele era baixinho.

7 comentários:

Priscila Chmurzenski disse...

Que lindo texto!!! Nem sei o que dizer...

Alane Pagliari disse...

Que texto maravilhoso!

Beijos,
http://labellejournal.blogspot.com ♥

Anônimo disse...

LidEEEEEEEEEEEA kkkkkkkk
Eu sei o motivo desse texto tá! kkkkkkkkkkkk
Beijos

Lídia disse...

Você estava presente Randal! KKKK FIA, faz um facebook pelo amor de Deus! Você sumiu completamente, tô começando a achar que vc foi presa! Bjo!

Anônimo disse...

kkkkkkkkkkkkkkkk ESTAVA!!! ESSA HISTÓRIA É REEEAAAL!!!Fui não, só não quero mais um vício na minha vida!!! Tô pensando ainda em fazer um... :P
Beijos!!!

Lídia disse...

Faz Randal, assim dá pra gente conversar

Tallis disse...

Gracinha este texto seu, sentimentos que aparecem no dia a dia, coisas que ninguém consegue explicar assim como os amigos que não entenderam nada, mas na verdade nada precisa ser entendido, tudo que precisamos é viver. A vida é uma só, o momento é esse e o que importa, na verdade o que importa é o que é importante para nós...