Eu sabia

Ela já chegou com cara de inocente. E era inocente, pobrezinha. Sem saber disfarçar o ódio despertado instantaneamente dentro de si e mostrando-se completamente incomodada com minha presença, não conseguiu tirar os olhos da minha felicidade um segundo sequer. O desprazer de ter a certeza que aquele momento se repetiria inúmeras vezes estava escancarado no seu rosto e na forma como nos olhava. Era de dar pena.

Nunca achei que fosse uma pessoa competitiva, mas naquele momento, a vontade de provocar esse turbilhão de sentimentos que se misturavam nos olhos dela quase venceu meu senso de respeito. Me lembrei das inúmeras vezes em que sentira a mesma aflição, e quis me vingar, só por prazer mesmo. Saber que tudo o que ela mais queria era estar no meu lugar, saber que quando chegasse em casa iria molhar o travesseiro mais uma vez procurando uma explicação para aquele sentimento de perda. Percebi que eu já estivera do outro lado. Muitas vezes. E infelizmente estava prestes a incorporar o papel ridículo de quem  humilha o perdedor. Mas isso nunca foi um jogo. Eu não tinha vencido nada.

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