Eu

Eu tenho. Medo. De não querer mais voltar. De não querer mais ficar. De voltar. De ficar. De não. De querer. De mais. Demais. Esse ano levou ao pé da letra o meu pedido da virada. Lembro-me bem: espero que minha avaliação de 2014 seja tão cheia de surpresas quanto essa. Mal chegou Dezembro e já estou avaliando. E espero que esses últimos 30 dias passem voando. Porque chega. Já me surpreendi, o suficiente. É natal. Já. E ainda não sei pra que lado olhar ao atravessar a rua. Essas luzes de natal piscantes, ora me alegram, ora me irritam. Me irritam a maioria das vezes. Já entendi que gosto é de cidade grande, e que a multidão solitária enfeitou minhas flanadas com infinitas possibilidades. Milhões delas, das quais muitas vezes abro mão pelo simples silêncio do meu quarto. A euforia e o encantamento dos dois primeiros meses em Londres acabou. E deu lugar à vida normal. Projeto, aula, estresse, entrega. Me entreguei fácil. E foice. A leveza do ser foi substituída pelo insustentável.

Eu sinto. Falta. De uma energia que não sei explicar. De um cheiro de casa limpa que só faz sentido se ela canta. De um domingo à tarde com ventilador ligado. De um pote de sorvete com coca que só tem gosto se ele está ali, e cheiro. Sete dias suficientes. De descer na Santa Efigênia e caminhar até a praça. De me sentir em casa, não importando a esquina. Eu sinto. Faz falta. Tudo pesa mais quando se está sozinho. Esses laços que a gente cria são fundamento espiritual. E no meu espírito mais oito-ou-oitenta de ser, é laçarote ou nó. E prefiro os nós. Aquele mergulho em algum ser humano que, por ser fraca a nossa natureza, nos sustenta. Nós sustentam. Insustentável é: caminhar na superfície.

Eu estou. Agora. Nessa multidão worcaólica obcecada por sucesso. Bombardeada por informação. Rodeada de risadas sem significado. Possibilidades demais sufocam. É difícil dar um nó. Nunca mais vamos nos ver. É assim, fácil. Só vejo fotos de nós. Eu tenho medo de ficar. Eu tenho medo de voltar. Você já não canta. Você já não toma mais sorvete. Não sei ser sem sofá. Eu estou em estado de não saber: não sei. O limite da sustentabilidade emocional é a incerteza de ser. Não estou certa. E posso estar errada.


Eu quero. Voltar. Voltar a respirar. Voltar a mim. Sentir o vento. O inverno. Vê-lo passar lento. Sentir as luzes. Como era quando éramos nós. Leves. Livres. Sem me prender à essas prisões que crio. Sem essas prisões. Invento o meu próprio tormento. Eu quero flanar sem a angústia de ter que sorrir. Eu quero sorrir sem a angústia de ter que. E me acomodar, e me acostumar que só tenho a mim pra chamar de casa. E cuidar dela. E reconhecer os nós, e atá-los ao tempo. Porque no fundo, eu só tenho e sinto e estou, com medo de ficar sozinha. E quero me lembrar que se estou é porque quero. E posso não querer mais. Quando eu quiser.

Espero que minha avaliação de 2015 tenha menos eu. E mais nós.

Nenhum comentário: